sexta-feira, 10 de junho de 2011

terça-feira, 12 de abril de 2011

Texto do professor Emir Sader

Reproduzo aqui um brilhante texto do professor Emir Sader, publicado originalmente em seu blog, no qual ele faz uma análise da decadência dos velhos meios de comunicação frente às novas ferramentas de informação e debates, presentes na internet.

A opinião pública, entre o velho e o novo
- A decadência irreversível da velha mídia e o surpreendente surgimento
de novas modalidades de formação democrática da opinião pública

Atribuem à internet – sua velocidade, seu caráter interativo, sua “irresponsabilidade” (“Qualquer um pode escrever...”, tipo Cansei) – a decadência da imprensa escrita. Claro que isso tem parte da verdade. Quem lê no dia seguinte o que já tinha ido na internet no dia anterior – às vezes lê nos jornais 2 dias depois de ter lido na internet -, tem uma sensação de tempo perdido, de notícia requentada, de um mundo superado pela rapidez virtual.

Além de que a internet, nas suas distintas modalidades, supera um dos problemas que permitiu o monopólio privado de algumas famílias, que pretendiam ser donas da formação da opinião pública, porque o investimento necessário para publicar um jornal ou uma revista é muito grande, enquanto que na internet é bastante pequeno ou quase nenhum.

A internet tornou-se assim um forte instrumento de democratização na circulação de informações, rompendo a fonte única e homogeneizadora das agências, assim como na interpretação dos fatos. A agenda nacional passa a ser disputada à velha mídia pelas novas formas, pluralistas, de expressão midiática, na internet.

Mas a razão de fundo da decadência irreversível da velha mídia está na sua falta total de credibilidade. A ponto de que atacaram implacavelmente o governo Lula e chegaram ao final de 8 anos com apenas 4% de rejeição do governo e 87% de apoio, o que vale também para medir a capacidade de influência da velha mídia sobre o povo brasileiro.

O melhor sintoma da decadência irreversível da imprensa escrita está na ausência dos jovens entre seus leitores, projetando a desaparição dessa modalidade de imprensa em um futuro não muito distante – porque se tornará inviável economicamente, depois de se tornar politicamente intranscendente.

Quando o jornal da ditabranda, dos carros emprestados à Oban e do “espectro do comunismo” me propôs escrever o artigo principal da página 3 em um domingo – em um reconhecimento claro que jornalistas seus tinham cometido graves erros que aumentam ainda mais a falta de credibilidade do jornal -, eu respondi que não me interessava. Que um artigo escrito em um blog, multiplicado pelos que os reenviam, mais seus ecos nos twitters e nos facebooks, além do twitcam, consegue muito mais leitores que um artigo em um jornal. Além de chegar aos jovens e aos setores dinâmicos da sociedade. Pesquisas mais recentes feitas pelo próprio jornal demonstram como seus leitores hoje são, em sua grande maioria, tucanos (os petistas abandonaram a leitura do jornal), dos grupos A e B, que representam a minoria da sociedade, com ausência absoluta de leitores jovens. Para a empresa interessa, porque são setores de maior poder aquisitivo, o que chama publicidade, mas se distanciaram ainda mais do Brasil real.

O jornal é muito chato, desinteressante, requentado, com cronistas que pararam nos ano 90, jurássicos, que se negam a acreditar que o país mudou, parecem todos iguais, repetem velhões chavões. Alguns jovens de idade, envelheceram prematuramente, incorporaram um ceticismo decadente, que chega rapidamente ao cinismo. Ficaram com os velhos tucanos como leitores, gente sem interesse e sem influência. Dai que tenham um caderno que se pretendem cultural que não é lido por ninguém, nem por eles mesmos.

Eu respondi à oferta que prefiro escrever aqui, propondo que a direção do jornal – que me ligou diretamente – mandasse um texto com suas opiniões, com o compromisso que seria publicado integralmente – o que eles não fazem -, mas que teriam que receber as opiniões dos leitores – interatividade a que eles não estão acostumados. Claro que não mandaram, odeiam a internet, estão irremediavelmente auto-excluidos do futuro da formação democrática da opinião pública.

Mas a velha mídia ainda constitui uma espécie de Exército regular- pesados, caros, lentos -, enquanto nós agimos com métodos de guerrilha, de estocadas, valendo-nos da mobilidade, da surpresa, da criatividade, do humor. Essa a grande batalha democrática entre o velho - que tenta sobreviver, com grandes dificuldades - , e o novo – que busca, com enormes esforços –criar os espaços democráticos e pluralistas que o novo Brasil requer.

Blog do Gadelha:

Blog do Gadelha:

quarta-feira, 30 de março de 2011

segunda-feira, 14 de março de 2011

Começou um novo ano?

Aqui no Brasil é lugar comum se dizer que o ano só começa quando acaba o carnaval. Mas não sou dos que compactuam com esta ideia. Pelo contrário, acho que a vida é contínua e o carnaval pra mim é uma espécie de rito de passagem. Para sorte de uns e azar de outros, a festa de Momo em 2011 caiu em março. Só lembro de uma única vez em que o carnaval caiu numa data tão longe assim, terminando praticamente na metade do mês de março. Nem sei qual o ano, só lembro que meu aniversário ( 11 de março) foi comemorado em plena Marquês de Sapucaí, no desfile das campeãs, com a Beija Flor.

Hoje, já não me empolgo tanto com o desfile do chamado grupo especial das super escolas de samba S/A. Este ano, por exemplo, preferi ir para a Avenida Intendente Magalhães, em Campinho, onde desfilam as pobrezinhas dos grupos de acesso C, D e E. Não por causa daquele discurso piegas, que alguns ainda teimam em apresentar do samba verdadeiro, genuino etc...etc.. Nada disso, até porque o desejo dessas agremiações, que lutam com imensa dificuldade e falta de recursos, é um dia se tornarem grandes e pisarem o asfalto do sambódromo. Legal na Intendente é que é um carnaval barato, sem cobrança de ingresso, divertido, familiar com presença de crianças e idosos, com segurança, relativo conforto e sobretudo muito samba. Lá vi passar escolas de sambas tradicionais e que já estiveram entre as poderosas, como Unidos de Lucas, Unidos da Ponte, Unidos do Cabuçu, Em Cima da Hora, Unidos do Jacarezinho. Outras que mesmo sem nunca estarem entre as grandes, têm muita história, como a União de Vaz Lobo, uma das mais antigas, com 80 anos de existência.

Mas não fui a Intendente apenas assistir, pois pisei o seu asfalto também para desfilar na Chatuba de Mesquita, pelo grupo E, na terça feira gorda, cujo o samba conta com a minha parceria. E no sábado de carnaval tive a alegria de ser campeão com o Tradição Barreirense de Mesquita, num desfile emocionante pelo segundo grupo de blocos, que sacudiu a passarela da Intendente, sendo aclamado pela platéia, numa linda homenagem ao radialista e produtor musical Adelzon Alves, o enredo da agremiação. Enfim, os desfiles da Intendente Magalhães são tudo de bom. Carnaval popular, barato, divertido. Uma boa opção para quem não gosta, não quer ou não pode assistir ou desfilar no sambódromo da Sapucaí.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

http://blog.planalto.gov.br/balanco-da-era-lula-no-globo-olho-torto-entorta-a-vista/trackback/

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Samba vencedor na Chatuba de Mesquita

Na finalíssima realizada do último domingo, dia 7, a Chatuba de Mesquita fez, pela primeira vez em sua história, a fusão de samba-enredo. Os sambas das parcerias de Rogério do Amanhã e Diego Chocolate foram os escolhidos para a união e terão a responsabilidade de descrever o enredo “Pro calor do Carnaval, a Chatuba traz uma Delícia Glacial”, de Alexandre Costa, Lino Salles e Marcus Doval.

Antes da apresentação dos três sambas finalistas, a escola promoveu show com os principais segmentos: a bateria de mestre Rogério, os casais de mestre-sala e porta-bandeira, Marcio e Bia e Samuel e Taiza, e intérprete Gregório, que cantou vários sambas de escolas coirmãs.

Durante a apresentação das três obras, duas se destacaram: as parcerias de Rogério do Amanhã e o de Serginho Aguiar e Diego Chocolate, que fez ótima passagem na bela interpretação de Jackson, um dos integrantes do carro de som da escola e também da Independente de São João de Meriti.


Logo a seguir, por volta das 5h de domingo, o presidente Natalino Junior anunciou, para surpresa de todos, porém com boa aceitação, a fusão do sambas dos compositores Rogério do Amanhã, Grilo, Durval 59, Amilton Cordeiro, Paulinho do Cavaco, Serginho Aguiar, Diego Chocolate, Dimenor, Jaquinho, Alvinho e Natham Time.

OBatuque conversou com Rogério do Amanhã, que também é o mestre de bateria da escola. Rogério falou da emoção de vencer a competição: “Estou muito feliz com a fusão. E é uma fusão, que na verdade, pode unir a comunidade da escola mais para este desfile de estreia no Grupo E. Nós temos comunidade para isso. Depois do desfile de avaliação, estamos trabalhando mais a bateria. Virei com três bossas ou mais no desfile. Respeitando as coirmãs, mas a Chatuba vem com tudo para disputar o título do Grupo E.


Já Diego Chocolate, que também é intérprete da Independente de São João de Meriti, conquista pela primeira vez o samba na Chatuba. Juntamente com seu parceiro Serginho Aguiar, comentou sobre a conquista: “Estou muito feliz com esta vitória aqui na Chatuba. É uma escola que está no meu coração. Tenho vários amigos aqui na comunidade. Fizemos um samba para agradar a todos e agradou, né? Temos a certeza de que a escola fará um grande desfile na terça-feira de carnaval.
Sobre o resultado, um dos carnavalescos, Lino Salles, explicou o porquê da fusão e da dificuldade em unir os sambas, pois segundo ele, a intenção é “abraçar a comunidade, pois é um momento de união”.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

De alma lavada

Foi um dia histórico e uma noite de lavar a alma. Depois de uma campanha eleitoral das mais duras, que entra para a história do país como a mais suja, sórdida, hipócrita, na qual o candidato do PSDB recorreu as mais obscuras práticas políticas, ressuscitando ódios, rancores e temores que imaginávamos já sepultados na política brasileira. Foi um domingo de vitória para afastar o preconceito, a discriminação, o xenofobismo e colocar o fundamentalismo religioso no seu devido lugar. E nada melhor do que celebrar a vitória de Dilma, a primeira mulher presidente do Brasil, do jeito que o brasileiro sempre faz, com alegria, animação, congregação de diferentes, da diversidade unida e muita música e cerveja para quem gosta.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Momentos decisivos: O que será que vem por aí?

SOFREGUIDÃO UDENISTA:
RESTAM APENAS DUAS CAPAS DE VEJA.


DEPOIS DA SINERGIA ENTRE UM LADRÃO DE CARGA E O 'JORNALISMO' DA FOLHA, O QUE MAIS VEM POR AÍ?

A coalizão demotucana e seu dispositivo midiático atiram-se com sofreguidão em qualquer 'língua negra' que desponte no solo ressequido da semeadura eleitoral demotucanao. Como tem anunciado todos os seus colunistas de forma mais ou menos desabrida, às vezes escancarada, a exemplo de Fernando Rodrigues, da Folha, há uma 'encomenda' em licitação aberta no mercado de compras do denuncismo lacerdista: "...é necessário um escândalo de octanagem altíssima (com fotos e vídeos de dinheiro) ...', especificou o jornalista em seu blog do dia 14-09. Na ausencia de oferta equivalente, usa-se por enquanto o que aparecer. Apareceu um 'empresário' indignado com supostas práticas de lobby, segundo ele, encasteladas na engrenagem da Casa Civil do governo, comandada pela agora ex- iministra Erenice Guerra. A Folha elevou-o à condição de paladino da honestidade. Esponjou-se no material pegajoso derramado da obscura tubulação. Claro, há o Manual de Redação, sobretudo as aparências de uma redação. Muito lateralmente, então, informa-se na 'reportagem-derruba Dilma' que a fonte da indignação cívica que adiciona um novo tempero à mesmice do cardápio diário apregoado pelos Frias inclui em sua folha corrida o envolvimento comprovado com roubo de carga, falsificação de 'notas de cinquenta reais e crime de coação, não detalhado. Há pouco tempo e espaço para detalhes. Nem o mínimo cuidado com a averiguação de valores se observa.O escroque que já cumpriu pena de 10 meses de cadeia, lambuzou a Folha com cifras suculentas e isso era o bastante: a negociata envolveria a 'facilitação' para um empréstimo de R$ 9 bilhões junto ao BNDES , desde que em contrapartida fossem desviados quase R$ 500 milhões a intermediários de uma cadeia supostamente iniciada com parentes ou subalternos da ministra Erenice Guerra para desembocar em caixas de campanha de candidatos do governo. Se a sofreguidão da Folha fosse menor, o jornalista, quem sabe seu editor, quiça o próprio diretor do jornal teriam tido a cautela de verificar a existência no BNDES de projeto e valores mencionados, já que o acepipe oferecido pelo ladrão de carga de tempero remetia à liberação de financiamento barrado na instituição. Se tal fosse a prática, o leitor teria a oportunidade de saber, em primeiro lugar, que os valores relatados são absurdos (equivalem a meia usina de Belo Monte para fornecer 6% da energia que ela prevê); ademais, há discrepância de cifras entre o relato do meliante eo o projeto que deu entrada no BNDES, cujo corpor técnico jamais o aprovaria. Diz a nota do banco divulgada 5º feira,"[o referido projeto]...foi encaminhado por meio de carta-consulta, solicitando R$ 2,25 bilhões (e não R$ 9 bilhões como afirma a reportagem) para a construção de um parque de energia solar. O BNDES considerou que o montante solicitado era incompatível com o porte da referida empresa. Vetou a solicitação. Naturalmente, isso comprometeria um pouco a 'octanagem' da manchete de seis colunas com duas linhas bombásticas saídas da sinergia estabelecida entre a Folha e um ladrão de carga de condimento. Não há tempo para minúcias. Restam apenas duas capas de VEJA para detonar a vantagem de Dilma e tentar uma sobrevida que leve Serra ao 2º turno. Essa é a lógica do que vem por aí. A esposa do candidato, Monica Serra, já diz em campanha de rua que "ela [Dilma] quer matar as criancinhas". Nas redações circulam rumores de que o comando demotucano estaria interessado em depoimentos de parentes de militares mortos em confrontos com grupos da esquerda armada, nos anos 70. Em especial se houver, ao menos, leve insinuação de suposto comprometimento de Dilma Rousseff.
(Carta Maior, 17-09)

Brilhante análise da conjuntura política e do momento eleitoral

Um modelo partidário trazido do atraso
Maria Inês Nassif (Valor)

A "mexicanização" do quadro partidário brasileiro é um debate a ser colocado em devidos termos. A ameaça de que o PT, depois das eleições de outubro, se transforme num Partido Revolucionário Institucional (PRI), que governou o México de 1929 a 2000, é apresentada como "denúncia". Isso é, no mínimo, um equívoco. A questão merece ser tratada criticamente por todos os atores do cenário político, sob pena de a eleição consolidar, de fato, e por um bom tempo, um único partido com condições de acesso ao poder pelo voto. Essa perspectiva está colocada não porque o PT trapaceou, mas porque a oposição acreditou demais no seu poder de influenciar massas via convencimento das elites. É uma estratégia medíocre de ação política, num mundo onde o acesso à informação tem aumentado e ao mesmo tempo saído da órbita exclusiva da influência dos grandes grupos, e num Brasil onde um grande número de cidadãos-eleitores deixou a pobreza absoluta, outro tanto ascendeu à classe média, a escolaridade aumentou, o acesso à internet é maior e a influência das elites sobre os mais pobres tornou-se muito, muito relativa.
Oposição não mobilizou militância nem formou quadros. Dos partidos na oposição, apenas o P-SOL, em passado recente, e o PPS, quando remotamente era PCB, conseguiram pelo menos formular idealmente um conceito de partido de massas. O P-SOL fracassou porque foi criado na contramão de um crescimento espantoso do PT, partido do qual se originou, e do recuo de setores que, durante o mensalão, ensaiaram abandonar o partido de Lula. Amedrontados com a retórica pré-64 da oposição, esses setores acabaram lentamente retornando à órbita do petismo. O PCB conseguiu a façanha de ser um partido de massas apenas quando tinha um líder carismático, Luiz Carlos Prestes. Como viveu boa parte de sua existência na clandestinidade, é difícil saber se teria vocação para sair da política de vanguarda e ganhar substância em setores mais amplos. O PPS, que o sucedeu, certamente não mostra essa capacidade. O PT continua a exceção no quadro partidário. A estrutura montada pelo partido nacionalmente, quando começava a se perder na burocratização da máquina, foi salva pelo lado popular do governo Lula e pela ofensiva oposicionista. O partido não é mais o que era quando foi fundado, mas é certo que tem uma representação social. As demais legendas, em especial as de oposição, não conseguiram sair da camisa de força dos partidos de quadros. O PSDB, que catalisou a oposição a Lula, e o DEM, com o qual é mais identificado, terceirizaram a ação partidária para uma mídia excessivamente simpática a um projeto que, mais do que de classes, é antipetista. Todo trabalho de organização partidária, de formulação ideológica e de articulação orgânica foi substituído por uma única estratégia de cooptação, a propaganda política assumida pelos meios de comunicação tradicionais. A vanguarda oposicionista tem sido a mídia. Esta, espelhando-se na velha estrutura social do país, tem praticado uma conversa exclusiva com os seus: assumiu um discurso para agradar a elite, que por sua vez perdeu quase totalmente seu poder de influência sobre os menos ricos e escolarizados. Os partidos de oposição e a mídia falam um para o outro. Pouco têm agregado em apoio popular, que significaria voto na urna e, portanto, vitória eleitoral. A ideia de propaganda política via mídia, que para a esquerda pré-Muro de Berlim era uma parte da estratégia de tomada do poder, e para os social-democratas a estratégia de conquista do poder pelo voto, tornou-se a única ação efetiva da oposição brasileira, exercida, porém, de fora dos partidos. Teoricamente, a mídia tradicional brasileira não é partidária. Na prática, exerce essa função no hiato deixado pela deficiente organização dos partidos que hoje estão na oposição ao presidente Lula. E o produto final não é exatamente a agregação de adeptos, mas uma conversa entre iguais, que se autoalimenta de um discurso trazido do udenismo, pouco propenso a conduzir um debate propriamente ideológico. Esse não é um fenômeno pós-Lula simplesmente, embora os dois governos do presidente petista tenham dado grande contribuição a esse descolamento entre a "opinião pública" e a "opinião dos pobres". Logo no início da redemocratização, foi instituído o voto do analfabeto. Ao longo dos dois últimos governos - portanto, nos últimos 15 anos - ocorreram ganhos de cidadania via aumento de escolaridade e renda que, por si só, incentivam a autonomia do voto. Nos últimos sete anos, os programas de transferência de renda reforçaram essa tendência. Esse contingente de novos eleitores ganhou autonomia de voto e se descolou da mídia tradicional. Nesse universo, os formadores de opinião pública - por sua vez formados pela mídia - não têm o mesmo acesso que tinham antigamente. O ingresso dos antigos desletrados na era da informação tem se dado pela televisão - e aí o horário eleitoral gratuito é neutralizador - e um pouco pela internet, mas a decisão política ocorre por ganhos de cidadania. Como a mídia tradicional é a única a operar como "propagandista" dos partidos de centro e de direita que nunca acharam necessário incorporar militância, formar quadros ou mesmo publicizar ideário, é de se supor que a capacidade de formação de consensos da mídia tradicional seja pouco significativa numa parcela do eleitorado que ascendeu recentemente ao mercado consumidor. O bloco oposicionista, que inclui não apenas os partidos, mas a mídia tradicional, não entendeu as mudanças que ocorreram no país. O modelo partidário que trazem na cabeça é um que pressupõe alinhamento automático de parcelas da população com líderes distantes ou donos de votos locais, ou a submissão da "ignorância" popular à opinião formada por iluminados. O novo Brasil não comporta mais isso. Esse modelo de política é elitista, porque não parte do princípio que as pessoas são iguais inclusive no direito de formar uma opinião própria.
Maria Inês Nassif é repórter especial de Política. Escreve às quintas-feiras no Valor.