
Madrugada, lua cheia no céu ilumina um asfalto já brilhando pelos holofotes do espetáculo que está por se iniciar. O chão, bordado de purpurina que caía dos corpos enfeitados para a festa, também sentia o calor do suor que rolava, porém mal esperava que dentro em pouco, lágrimas também fariam parte dessa mistura. Tambores soam e repicam: "Reluzente como a luz do dia, bela e formosa como a onda do mar, encantadora e feliz..." E o movimento dos quadris, pernas misturadas, mãos para o alto. Emoção invade o ar e baila uma onda estranha de prazer.
O verde e branco da minha fantasia reluz nos seus olhos. Só depois, iria perceber que a minha fantasia, já rasgada e despida, era apenas um desejo desbotado diante do brilho do seu olhar na penumbra do quarto. Inacreditável que a morena mais linda do show estivesse agora ali, diante de mim, contando coisas da vida, dos amores desfeitos, de mortes inusitadas, de beijos perdidos, de desejos e sonhos.
Antes já tinho sido surpreendido. Ela olhou para mim e disse: "Não vá embora agora, pois a cerveja não demora". Suas palavras não saiam apenas tremendo os lábios, mas também avermelhadas com gosto de morango e um encanto que prenunciava um longa noite. Eu, ainda triste, com o pessimismo de um botafoguense que sabe que pode perder o jogo a qualquer momento; e pior, tomando um gol de virada aos 45 do segundo tempo. Pensei não ter direito de ser tão feliz assim. Mas ela alertou sobre a impossibilidade de uma segunda chance.
Adormeci sob overdose e acordei com o sol me espiando pela fresta da janela. Os resquícios da festa ainda estavam presentes no lençol, nos travesseiros, espalhados pelo chão, respingados no tapete. Mas isso era apenas superfície diante das marcas mais profundas que permaneceriam dentro de mim por muito mais tempo. Entretanto, depois daquela noite minhas lágrimas mudaram de sabor e tornaram-se muito mais doces.
Muito bom. Sensível e cheio de poesia.
ResponderExcluirAdorei.
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